sábado, 31 de julho de 2010

BIOGRAFIA: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (BRASIL)*




Foto: Bandeira do Brasil



O CONSTANTE DIÁLOGO


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE



Há tantos diálogos


Diálogo com o ser amado
o semelhante
o diferente
o indiferente
o oposto
o adversário
o surdo-mudo
o possesso
o irracional
o vegetal
o mineral
o inominado

Diálogo consigo mesmo
com a noite
os astros
os mortos
as idéias
o sonho
o passado
o mais que futuro

Escolhe teu diálogo
e
tua melhor palavra
ou
teu melhor silêncio
Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.







Foto: Carlos Drummond de Andrade


"Eu lamento que haja pouco consumo de livros no Brasil. Mas aí é um problema muito mais grave. É o problema da deseducação, o problema da pobreza e -- portanto - da falta de nutrição e da falta de saúde. Antes de um escritor se lamentar porque não é lido como são lidos os escritores americanos ou europeus, ele deve se lamentar de pertencer a um país em que há tanta miséria e injustiça social."

(Drummond, em sua última entrevista, poucos dias antes de sua morte.
In O Dossiê Drummond, de Geneton Moraes Neto, Ed. Globo, 1994)



Filho do fazendeiro Carlos de Paula Andrade e de D. Julieta Augusta Drummond de Andrade,nasce em 31 de outubro de 1902, e falece em 17 de agosto em 1987, no Rio de Janeiro.

Passa a infância em Itabira. Com 14 anos, estuda como interno no Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte - onde conhece Gustavo Capanema e Afonso Arinos de Melo Franco - e, depois, no Colégio Anchieta da Companhia de Jesus em Nova Friburgo (RJ), de onde é expulso por "insubordinação mental". Enquanto estudava em Nova Friburgo, seu irmão Altivo publica seu poema em prosa Onda no único número do jornalzinho Maio, em Itabira.

De volta a Minas Gerais, muda-se com a família para Belo Horizonte. Freqüenta o Café Estrela e a Livraria Alves, onde conhece Milton Campos, Abgar Renault, Emílio Moura, Alberto Campos, Mário Casassanta, João Alphonsus, Batista Santiago, Aníbal Machado, Pedro Nava, Gabriel Passos, Heitor de Sousa e João Pinheiro Filho. Nessa época, publica seus primeiros trabalhos no Diário de Minas e ganha o concurso Novela Mineira pelo conto Joaquim do Telhado. As revistas Para todos e Ilustração Brasileira, do Rio de Janeiro, publicam alguns de seus poemas.

Em 1922, recebe o seu primeiro prêmio com o conto " JOAQUIM DO TELHADO", publicado na Novela Mineira, de Belo Horizonte, no número de setembro-outubro.

Em 1923, matricula-se na Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte.

Escreve a Manuel Bandeira e entra em contato com o grupo modernista de São Paulo, que passa, em viagem, por Belo Horizonte, em 1924. Conhece Blaise Cendrars, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Mário de Andrade, de quem se tornará amigo e manterá correspondência até poucos dias antes da morte de Mário.

Mais atraído pelas discussões sobre a arte e o país do que pelas aulas de química, forma-se farmacêutico em 1925, mas nunca exerce a profissão. Ainda neste ano, casa-se com Dolores Dutra de Morais e funda, junto com Emílio Moura e Gregoriano Canedo, A Revista, órgão modernista do qual saem 3 números. Depois de lecionar Geografia e Português no Ginásio Sul-Americano em Itabira, volta a Belo Horizonte para ser redator do Diário de Minas.

Em 1928, nasce Maria Julieta, a filha única que será a grande companheira do poeta. Seu poema No meio do caminho é publicado pela Revista de Antropafagia, de São Paulo. O poema causa forte impacto e se torna um dos maiores escândalos literários do Brasil. O poeta publicará, 39 anos depois, Uma pedra no meio do caminho - Biografia de um poema, coletânea de críticas e matérias resultantes do poema ao longo dos anos. Neste mesmo ano, vai trabalhar na Secretaria de Educação, na redação da Revista do Ensino.

Em 1929, deixa o Diário de Minas para trabalhar no Minas Gerais, órgão oficial do estado, sob a direção de Abílio Machado e José Maria Alkmim.

Em contraste com a pacata vida de funcionário público, a publicação do seu primeiro livro, em 1930 - Alguma Poesia - gera, com a mesma intensidade, ataques e elogios da crítica e do público. A edição de 500 exemplares, sob o selo imaginário de Edições Pindorama, criado por Eduardo Frieiro, é facilitada pela Imprensa Oficial do Estado, o que não altera em nada o caráter de ruptura e inovação da obra.

Em 1934, volta a ser redator dos jornais Minas Gerais, Estado de Minas e Diário da Tarde, simultaneamente, e publica “Brejo das Almas”, em edição de 200 exemplares. Gustavo Capanema é nomeado Ministro da Educação e Saúde Pública por Getúlio Vargas neste mesmo ano, e Drummond é convidado para ser o seu chefe de gabinete.
Muda-se com a família para o Rio de Janeiro, então capital da República, onde suas atividades intelectuais se ampliam e ganham impulso.

Colabora, inicialmente, na Revista Acadêmica e, em seguida, no Correio da Manhã, Folha Carioca, A Manhã, Leitura, A Tribuna Popular, Política e Letras e na revista Euclydes. Em 1940, distribui entre amigos e escritores os 150 exemplares da edição de Sentimento do mundo. Em 1942, José Olympio é o primeiro editor a se interessar pela sua obra e publica Poesias - José. Em 1944, por iniciativa de Álvaro Lins, Drummond publica seu primeiro livro de prosa Confissões de Minas.

Em 1945, publica A Rosa do Povo pela José Olympio e a novela O Gerente. Desliga-se do gabinete de Gustavo Capanema e aceita o convite de Luís Carlos Prestes para integrar a diretoria do diário do Partido Comunista, A Tribuna Popular. Meses depois, insatisfeito com a orientação do jornal, afasta-se e vai trabalhar na Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, a convite do amigo Rodrigo M. F. Andrade. Mais tarde se tornará chefe da Seção de História, na Divisão de Estudos e Tombamento.

As atividades do poeta continuam bastante diversificadas. Ainda em 45, volta a escrever no Minas Gerais e participa da tentativa frustrada de reformulação do DIP, Departamento Nacional de Informações. Também nessa época Drummond, cuja vida pessoal foi sempre marcada pela discrição, conhece a jovem Ligia Fernandes, funcionária do DPHAN, a quem dedicaria, ao longo da sua trajetória poética, alguns de seus mais belos poemas.

Em 46, ganha o Prêmio pelo Conjunto de Obra, da Sociedade Felipe d'Oliveira. Muitos outros prêmios foram acrescentados no decorrer de sua vida.

Às atividades de escritor e jornalista, Drummond somou a de tradutor de textos literários. Traduziu, entre outros, Les liaisons dangereuses, de Choderlos de Laclos (1947); Les paysans, de Balzac (1954); Albertine Disparue, de Proust (1956).

Em 48, Drummond publica Poesia até agora. O Poema de Itabira, composto por Villa-Lobos sobre seu texto Viagem na família, é executado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro à mesma hora em que o poeta acompanha o enterro de sua mãe, em Itabira.

Maria Julieta casa-se, em 49, com o escritor e advogado argentino Manuel Graña Etcheverry e muda-se para Buenos Aires. Em 1950 - quando nasce o seu primeiro neto, Carlos Manuel - Drummond viaja pela primeira vez para fora do país. Durante a sua vida, as poucas viagens internacionais sempre tiveram o mesmo destino - a Argentina, e razão - a saudade.

Se Drummond não viaja muito, o mesmo não acontece com as suas obras. Em 51, em Madri, é publicado o volume Poesias. Em Buenos Aires, em 53, aparece Dos poemas. A partir da década de 60, suas obras estariam em diversos países, como Alemanha, Estados Unidos, França, Portugal, Suécia e outros.

Em 51, Drummond estréia como contista com a publicação de Contos de aprendiz. No mesmo ano, publica Claro enigma e A mesa. Em 52, Passeios na Ilha e Viola de Bolso. Em 54, Fazendeiro do Ar & Poesia até agora; Viola de Bolso novamente encordoada aparece em 55; 50 Poemas escolhidos pelo autor, em 56 e Poemas, em 59.

A intensa atividade do poeta e a revelação do contista não impedem o autor de escrever as crônicas que, durante quatro décadas, encantaram os leitores de alguns jornais. Em 1952, ele publica o volume de crônicas “Passeios na ilha”. O livro seguinte, “Fala, amendoeira”, de 1957, reúne as crônicas publicadas na coluna Imagens, do diário carioca Correio da Manhã, onde permaneceu até 1969, quando se transferiu para o Jornal do Brasil.

Com a aposentadoria, em 62, Drummond ganha mais tempo para suas atividades intelectuais. Neste ano, publica Antologia Poética, A bolsa & a vida e Lição de coisas, premiado em 63. Colabora no programa Vozes da Cidade, criado por Murilo Miranda, na Rádio Roquete Pinto e inicia o programa Cadeira de Balanço, na Rádio Ministério da Educação, título de um de seus livros de crônicas que seria editado em 1966.

Com o reconhecimento do público e da crítica, em 1964 a Editora Aguilar publica toda a sua produção em Obra completa. Cinco anos depois, seria a vez de Reunião, abrangendo vários livros do poeta. Em 65, publica, em colaboração com Manuel Bandeira, Rio de Janeiro em prosa & verso.

Nos anos 70 e 80, Drummond recebeu muitos prêmios e continuou a publicar poesia, crônicas e contos, além de colaborar em jornais. Em 1972, jornais do Rio, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre publicam suplementos comemorativos do 70º aniversário do poeta. Em 77, grava 42 poemas em 2 long plays, lançados pela Polygram. Quando completa 80 anos, é homenageado através de exposições, entrevistas e reportagens.


Em 83, organiza a edição de Nova reunião - 19 livros de poesia, sua última publicação pela Editora José Olympio. No entanto, recusa-se a receber o Prêmio Juca Pato, alegando estar física e emocionalmente frágil.

Em 1984, despede-se da Editora José Olympio e assina contrato com a Editora Record, que publica sua obra até hoje. Também se despede da carreira de cronista, com a crônica Ciao, no Jornal do Brasil, depois de 64 anos de trabalho jornalístico. Em 1986, sofre um infarto e é internado durante 12 dias.

Em 31 de janeiro de 87, escreve seu último poema, Elegia a um tucano morto que passa a integrar Farewell, último livro organizado pelo poeta. É homenageado pela escola de samba Estação Primeira de Mangueira, com o samba-enredo No reino das palavras, que vence o Carnaval 87. Em julho, debilitado, concede uma última entrevista, em tom amargurado - Maria Julieta está com câncer e falece no dia 5 de agosto, depois de 2 meses de internação. "E assim vai-se indo à família Drummond de Andrade" - comenta o poeta.

Seu estado de saúde piora e apenas 12 dias depois da morte da filha, em 17 de agosto, morre vítima de insuficiência cardíaco-respiratória. É enterrado no mesmo túmulo que a filha, no Cemitério São João Batista do Rio de Janeiro.

Deixa várias obras inéditas: Farewell; O avesso das coisas (aforismos), Moça deitada na grama, O amor natural (poemas eróticos), Viola de bolso III (Poesia errante), hoje publicados pela Record; Arte em exposição (versos sobre obras de arte); além de crônicas, dedicatórias em verso coletadas pelo autor, correspondência e um texto para um espetáculo musical, ainda sem título.

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