sábado, 30 de outubro de 2010

SE EU LHE DER O SOL, VOCÊ NAMORARIA COMIGO? - VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (BRASIL)




Foto: Pescadores (Rio das Ostras)- TAAR-Brasil, 2009


SE EU LHE DER O SOL, VOCÊ NAMORARIA COMIGO?



Na luz primária do pensamento a sensibilidade passeia com seus encantos, e dois
feixes de beleza e ternura indagam-se enamorados, enquanto um golfinho eterniza a tarde que cai lentamente sobre nós... E esse seu cabelo lindo, irradiando desejos de vida... De se ficar em aconchego...
- Se eu lhe der o Sol, você namoraria comigo?
Percebo tudo, de soslaio. e fico imaginando, nós dois assim, iguais.



( In: Entre o Abismo e a Montanha, Vanda Lúcia da Costa Salles ( no prelo)

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

HOMENAGEM: JOSÉ GERALDO NERES (BRASIL)*



Foto: José Geraldo Neres




O SOL NÃO ME ESPERA[6]



um cão ilumina a si mesmo
dentro da pele da morte
sua boca um rio de lençóis

o mistério desliza pela noite
um cego vigia a porta

a quem ele estende a mão?
como ajudá-lo a atravessar a porta?

nasce com um naufrágio atrás das orelhas
e seus olhos não possuem memória

não há claridade no caminho
apenas o cão com seus olhos de barro


EM NOME DA SEDE[4]


sombras se agitam
a uivar para as nuvens de martelos assustados

olhos selvagens na floresta de sobrancelhas
se agarram ao suicídio das casas
na tentativa de descobrir o segredo da terra

elas
reclamam que não conseguem sonhar direito
se encolhem de frio
querem comprar mais uma alma
mas se sentem arrastadas pelo espelho
uma paisagem de olhar amassado de sono
na sensação de serem devoradas pela areia
de serem um rio afogado


sussurram
somos
o castigo na espera de passar pelas sete portas
o ventre despovoado de raízes
a noite fechada dentro do homem
a estrada no limite do corpo
a segunda língua de tudo que não existe
a palavra que ninguém responde
a insônia das águas em sangue doente
o passo lento das casas e suas pálpebras pesadas


DESERTO DOS PÁSSAROS ÚMIDOS[3]



I



o tempo
navega
além do rio
o tempo
prisioneiro
o tempo
além da vontade da água

porta parada

homem oco e seus relógios
nome deitado cego
escondido nas raízes da água
enterra sua sombra
nos galhos de um arco-íris

parado na porta
o tempo



II



voz no cortejo de punhais
sol afogado no peso e na dor dos pássaros
seu olho
no sangue do rio
e nas suas margens com seios de prata
língua de serpente no voo da lua
e na espera d’água





III



a dança conta a vida
como se chovessem noites

o ritmo desperta a água
nos olhos navalhas

o movimento enroscado no deserto dos pássaros úmidos

deus

– em seus pesadelos
penetrava nas almas e arrancava os olhos
a poesia não cicatrizava –

acorda
na última fila
ele
diante do espelho

a linguagem da queda





IV



sentir o silêncio da nudez
palavra aquática
nos olhos
o dilúvio de arco-íris
corpos líquidos
deslizam à deriva
águas sem margens
ondas se enterram
no lírico punhal
das pequenas mortes





V



as pálpebras escavam
um círculo
agarram o mar
metade luz
metade grande selva
no horizonte
constelações de peixes rápidos
no altar de estrelas
um grito invisível
ponteiros sem lágrimas
o demônio na sombra de um deus
barcos no pulso das nascentes
dois rios inimigos
lábios em forma de promessas





VI



as árvores cantam
levam meu corpo
suas raízes criaram asas
movimento de mulher de país infinito
meus olhos no aprendizado das horas
imagino um lago
espero um navio líquido
um peixe no céu
naufrágio alado
ave trançada em algas
mostra sua pele
um rio sem margens
ensina à nuvem
ser uma manada de palavras
uma metáfora suspensa
sentado no seu colo
a noite faz morrer uma estrela
o ventre na descoberta da água
exibe-se
atravessa o silêncio
os dias cobrem os ponteiros
rasgam o vento
e o que não existe
sangra o fogo
no seu dorso
água violenta
no rio
as árvores cantam














*JOSÉ GERALDO NERES, (nasceu em Garça, SP, em 1966). Poeta, roteirista, dramaturgo (com formação em oficinas e cursos de criação textual) e produtor cultural. Graduado em Letras pela Universidade Federal do Maranhão e Pós-graduado em Literatura Brasileira pela PUC-MG. Publicou o livro de poesia Olhos de barro, (Coleção Orpheu, Multifoco Editora) que recebeu menção especial na 3a edição do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura (2010); e Outros Silêncios, Prêmio ProAC da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo 2008, (Escrituras Editora, 2009) realizado através do programa “Bolsa para autores com obra em fase de conclusão” da Fundação Biblioteca Nacional em 2007/2008; e Pássaros de papel (Dulcinéia Catadora, edição artesanal, SP, 2007). É co-fundador do Palavreiros. Integrante do Conselho Gestor & Editorial do Ponto de Cultura Laboratório de Poéticas (Programa Cultura Viva, do MinC). Gestor Cultural. Curador da Sala Permanente de Vídeo/Doc. da 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará (2008). Jurado da etapa inicial do Prêmio Portugal Telecom de Literatura (2009). Ministra oficinas literárias, com ênfase em criação literária e estímulo à leitura. Atual curador do projeto Quinta poética encontros multilinguagens promovidos pela Escrituras Editora e Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

MOMENTO DISCENTE: BELEZA DE MINHA TERRA- AIMÉE PINHEIRO



Foto: Rio das Ostras




Hoje eu cheguei no colégio com bom ânimo, pois iremos dar um passeio nas praças de Rio das Ostras chamadas: São Pedro e José Pereira Câmara.
Andamos em parar pela Rua Bangu e cada vez que eu chegava mais perto do local mais minha vontade febrecitante aumentava. Passamos pela Rua Inajara, paramos na Biblioteca de Rio das Ostras.Quando chegamos lá a minha felicidade era tanta que ao olhar para os meus colegas via também a mesma felicidade.
A paisagem era tão linda que eu quase ficava parada com tanta beleza. Aquelas ondas calmas me acalmando, as árvores, flores lindas de várias cores, um azul claro no céu com muito pouco do sol aparecndo, uns barquinhos, poucas nuvens no céu e essa paixão em mim...
Eu adorei o passeio, essa aula ao ar livre, espero que tenha mais vezes, pois aprendi muitas coisas que eu não sabia.
Eu não sabia que Rio das Ostras é tão bela.

sábado, 23 de outubro de 2010

HOMENAGEM: CRISTOVAM BUARQUE E A TODOS QUE FIZERAM, FAZEM E FARÃO A DIFERENÇA EM PROL DA EDUCAÇÃO -Internacionalização do Mundo





" O Brasil é como um pássaro que lança o seu canto em direção ao Sol.
E caminha em direção de sua glória e para além da fenda do muro..."

Vanda Lúcia da Costa Salles (Brasil)


- Internacionalização da Amazônia -

Durante debate ocorrido no mês de Novembro/2000, em uma Universidade, nos Estados Unidos, o ex-governador do Distrito Federal, Cristovam Buarque (PT), foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazônia. O jovem introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro. Segundo Cristovam, foi a primeira vez que um debatedor determinou a ótica humanista como o ponto de partida para a sua resposta:

"De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso. Como humanista, sentindo e risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a Humanidade. Se a Amazônia, sob uma ótica humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço. Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado

Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou
de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação. Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural amazônico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país.

Não faz muito, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado. Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhattan deveria pertencer a toda a Humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história do mundo, deveriam pertencer ao mundo inteiro. Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil. Nos seus debates, os atuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a idéia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida.

Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do mundo tenha possibilidade de ir à escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazônia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um patrimônio da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar; que morram quando deveriam viver. Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa."




(*) Cristóvam Buarque foi governador do Distrito Federal (PT) e reitor da Universidade de Brasília (UnB), nos anos 90. É palestrante e humanista respeitado mundialmente.

HOMENAGEM: CHICO BUARQUE- Feijoada Completa







" A alegria do povo brasileiro... É ver todos os seus filhos, de fato e de direito, na escola pública... E que a EDUCAÇÃO seja realmente de qualidade...Com todos, entre todos e para todos..."


Vanda Lúcia da Costa Salles (Brasil)



FEIJOADA COMPLETA

Chico Buarque



Mulher
Você vai gostar
Tô levando uns amigos pra conversar
Eles vão com uma fome que nem me contem
Eles vão com uma sede de anteontem
Salta cerveja estupidamente gelada prum batalhão
E vamos botar água no feijão

Mulher
Não vá se afobar
Não tem que pôr a mesa, nem dá lugar
Ponha os pratos no chão, e o chão tá posto
E prepare as lingüiças pro tiragosto
Uca, açúcar, cumbuca de gelo, limão
E vamos botar água no feijão

Mulher
Você vai fritar
Um montão de torresmo pra acompanhar
Arroz branco, farofa e a malagueta
A laranja-bahia ou da seleta
Joga o paio, carne seca, toucinho no caldeirão
E vamos botar água no feijão

Mulher
Depois de salgar
Faça um bom refogado, que é pra engrossar
Aproveite a gordura da frigideira
Pra melhor temperar a couve mineira
Diz que tá dura, pendura a fatura no nosso irmão
E vamos botar água no feijão

MOMENTO DISCENTE: ROSAS - PATRICK GONÇALVES GUERREIRO(BRASIL)



Foto: Pintura de Cezanne


ROSAS


Rosas do olhar
que faz imaginar
primavera a chegar
para todos se alegrar


Primavera vem ai
pássaro a cantar
borboleta vem voando
e o fruto a brotar


Aventuras a chegar
todos elogiam,
brincadeiras a falar
todos vão gostar.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

HOMENAGEM: ADÃO VENTURA (BRASIL)*



Foto: Bandeira do Brasil



Foto: Adão Ventura (Brasil)



ALFABETIZAÇÃO


Adão Ventura


Papai
Levava tempo
Para redigir uma carta.


Já mamãe Sebastiana de José Teodoro
Teve a emoção de escrever seu
Nome completo
Já quase aos setenta anos




COMENSAIS


a minha pele negra
servida em fatias,
luxuosas mesas de jacarandá
a senhores de punhos rendados
há 500 anos.



AGORA

É hora
de amolar a foice
e cortar o pescoço do cão.


- Não deixar que ele rosne
nos quintais
da África do Sul.


É hora
de sair do gueto/eito,
senzala
e vir para sala
- Nosso lugar é junto ao Sol.




*ADÃO VENTURA FERREIRA REIS: nasceu em Santo Antonio do Itambé, MG, em 1946. Formou-se em direito pela UFMG e em 1973 a convite da University of New Mexico, foi para os Estados Unidos onde lecionou literatura contemporânea.
Publicou diversos livros, dentre eles A cor da Pele, Texturafro e As musculaturas do Arco do Triunfo, já participou de várias antologias e seus poemas foram traduzidos para o inglês e o alemão. Teve um de seus poemas incluído na antologia Os Cem Melhores Poemas Brasileros do Século, organizada por Italo Moriconi ( Editora Objetiva - SP). Sua poesia mostra-se impregnada pelas questões da negritude e, simultaneamente, por uma simplicidade que a faz legítima, e fluida, ou como escreveu Manoel Lobato: "A iniquidade do mundo e o mistério da vida gritam na sonoridade de seus versos".
Em 2002 publicou Litanias de Cão.
Faleceu em junho de 2004.


SOBRE ADÃO VENTURA


"Adão Ventura Ferreira Reis, que nasceu em Santo Antônio do Itambé, no interior de Minas Gerais, em 1946, assim como Cruz e Sousa e Solano, foi um militante da causa negra. Sua poesia, impregnada de questões da negritude, revela um poeta sensível, sonoro, fluente, preocupado com a situação do negro no Brasil e no mundo. Iniciando os períodos com letras minúsculas e escrevendo África – sempre – com letras maiúsculas, Ventura estimula, com elegância, a altivez e a dignidade do povo negro, que jamais pediu ao europeu para ser escravo no Brasil ou na América do Norte. A projeção do negro nas Américas, como sabemos, é lenta, lentíssima, difícil. O negro, vigiado, policiado por todos os lados, vê-se como O Emparedado, do texto em prosa de Cruz e Sousa. O Brasil, hipócrita, ainda não assumiu o sangue negro a correr em suas veias; o sangue daqueles africanos humilhados pela escravidão, um crime tão hediondo quanto o Holocausto de judeus na Alemanha de Hitler."


http://66.228.120.252/cronicas/850418 -AQUELE OUTRO POETA NEGRO, POR

NELSON MARZULLO TANGERINI