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segunda-feira, 7 de março de 2011

POESIA: COM A MINHA FLOR - VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (BRASIL)



Foto: Bandeira do Brasil



Foto: Vanda Lúcia da Costa Salles (Brasil)




COM A MINHA FLOR


VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (BRASIL)

Com a minha flor, canto
e a minha pétala surge lépida e guerreira, do cerne.
A única coisa que sei
é esta ânsia de ser o que sou
na descoberta de ser
o quê
a aprendizagem me encorpa
No corpo cicatrizes
de mulher plena
de possibilidades


Não dou garantia a ninguém,
acredite quem queira
essa flor
que me embala
e desnuda-se quando quer


Educação, meu nego
nem sempre aprimora
Assim, em algumas ocasiões: também grito.
E esse nosso grito é o que nos alimenta.
Portanto,
basta de lenga
que a nossa paciência
tem limites.




*VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES: nasceu em Italva, interior do Rio de Janeiro, Brasil, em 25 de abril de 1956. É escritora, poeta, ensaísta, artista plástica, tradutora e conferencista.Graduada em Letras/Português-literaturas, pela UERJ/FFP;Pós-Graduada em Literatura Infanto-Juvenil pela UFF;e em Arteterapia na Saúde e na Educação pela pela UCAM.Catedrática de Literatura do Museu Belgrano(Argentina), ortogada pelo Fundador e Diretor Dr. Ricardo Vitiritti; Diretora Internacional do Taller Artístico Alas Rotas-Alitas de América, nomeada pela Fundadora e Diretora Geral do T.A.A.R., em Argentina Srª Silvia Aida Catalán; Fundadora e Diretora do ENLACE MUSEU PÓS-MODERNO DE LITERATURA.
Publicou: No tempo distraído (narrativas, Ágora da Ilha,2001),Diversidades e Loucuras em Obras de Arte- um estudo em Arteterapia (ensaio, Ágora da Ilha, 2001),A palavra do menino e as abobrinhas ( infanto-juvenil), HP.Editora,2005), O chamado das musas.Pô-Ética Humana: o enigma do recheio- a arteterapia ao sabor da educação brasileira(pesquisa poética em arte e educação, Creadores Argentinos, 2008; Núncia Poética (poesias, Cbje,2010). Participa também das seguintes antologias: Os melhores poetas brasileiros Hoje/1985(Shogum Editora, 1985), III Encuentro Nacional de Narradores y Poetas - Unidos por las Letras!-2009-Bialet Massé (Córdoba, Argentina,2009), Poesia em Trânsito-Brasil/Argentina (La Luna Que, Buenos Aires, 2009, e 1º Antología Literaria Nacional e Internacional 2010 " Ser Voz en el Silencio, S.A.L.A.C. va.Carlos Paz, Córdoba-Argentina (Galia's, Editora Independiente,2010.

domingo, 6 de março de 2011

HOMENAGEM: A MORTE NATURAL COM O ESCRITOR - CLAUDIA QUADRI (SUÍÇA)*



Foto: Bandeira da Suíça



Foto: Claudia Quadri (Lugano,Suíça)




A MORTE NATURAL COM O ESCRITOR


CLAUDIA QUADRI (SUÍÇA)



Ascânio ressonava no sofá. Seu nariz, a partir da perspectiva do escritor, desconfortável, parece com uma escova de vaso sanitário. O escritor desloca seu peso para uma nádega ferida, no outro finge estar, o sofá é baixo, Ascanio em seu sono, descobre um cão muito amarelo. O escritor refere-se a suas intenções depois de justicar, restaurando a ordem natural das coisas: o terrier na manta de cobertura, listrado, ele na cadeira.
Da cozinha vem o som de sua caneca de café na pia usado. Mas vai, eventualmente, passar por ele, mais cedo ou mais tarde, certo?
O melhor é que o restaurante, era ela que tinha escolhido. Ela descobriu pequenos baratos sofás cor de pêssego. O mural na parede: kitsch. Desodorante para banheiros: barato. Língua que sua esposa sabe! O cisne foi recheado, enojado e basta, e ela queria comer no terraço. Obviamente que, no projeto completo, montado nas torres. Obviamente, ele não foi tão encantador. E ela escolheu esse momento para fazer o seu giro. Isso facilitava o almoço. Que suga o linguine com molho de lagosta. E como ele tinha um aspecto sinistro, sua esposa, finalmente, deu-lhe a caneca.
- E pensar que naquela época eu era sua musa!
- Sim, mas com aquele focinho ...
Viu-o congelado do outro lado da mesa, enquanto sob a mesa, certamente, brilhou o cão do olho como uma pérola negra.
Instalado na cadeira listrada Ascanio solta um arroto pequeno. A pátina escritor desnecessariamente os pés no tapete, tentando subir o sofá de couro do assento, inclina-se para o Remy Martin. Ele tem o busto, braço, outro braço naquele momento ela aparece na soleira da cozinha, parece um mergulhador acabado de sair da água. Ele senta-se, vestindo uma mão à cabeça, reuniu-se com a cabeça careca. Corou. Ela levanta a sobrancelha, o que certamente canis disse do seu lado: Cap. facultativo.
Eles saíram para comemorar. Ele, Greta e Ascânio. O escritor recebeu o prêmio de um romance curto. "Uma longa história", disse a concorrência da menina. Novela, o escritor resolve a si próprio. Novela uma aura de nobreza. Notícias imediatamente o ar de algo mais modesto. Isso não é justo, mas é verdade. Mas esta história de "longa" e "curtas" ... Em suma, é como dizer que curto. Ele se vê como garoto logo pouco de calças curtas.
Corpo a corpo com o sofá, cansaço, inquietação, torcicolo. Ascânio com seu ar ostensivo, que é superior. Amargura, um pouco. Em um momento ele mencionou o preço.
- Você conhece a minha história ...
- Humm.
- ... recebeu um prêmio.
- Ah.
- Não é ruim, certo?
- O que te deu?
- Uma placa.
- Bravo. Intercambiáveis?
Um prato ", ele medita. Menção especial, realmente. Mas o que ele deveria ter vergonha? A placa não é uma lápide. Depois de todos. Naturalmente, esta não é a altura do "Dürrenmatt novo", como escreveu em entrevista o tarado, há algum tempo, sobre alguns de seus novos (breve). Na interrogativa, ok - um Dürrenmatt novo? ... É possível que ele não entendeu a postura no que ele disse? Ele me perguntou sobre "Deus e escrever" "escrever e ser escrito." Em um ponto, ele disse: Eu também escrevo. Eu queria responder-lhe: eu apostaria. O pesado ele esvaziou o bar. Ele levou para a geração beat. Testes do famoso artigo, o escritor nunca viu, apesar de todos os "sim, claro, escusado será dizer." Então, quando ele leu no jornal, ele queria pousar no pistola elaboração na mão, pedindo-lhe entrevistador. Diga-lhe: morrer ou ser morto? A complacência nesta Dürrenmatt novo! Ele estava certo, com certeza! pessoas alegremente imaginadas. A sutil arte de nuances, esse cara nem sabia onde encontrá-la. Se realmente houvesse ... sugerir, aludem ... E este novo, como o Beaujolais ... Quanto aos seus colegas, eles tinham montado um apelido para a eternidade.
Sua esposa desapareceu na zona da noite. Como em um selim de bicicleta muito alto ou muito baixo no guidão, o escritor tem uma visão privilegiada de seus próprios joelhos. Ele é magro. Ele tateia através do pijama de flanela. Cautelosamente, ele se move, a bola de um lado para outro, como ele já era um garoto, e ele impressionou um pouco. Sim, fino. Enquanto isso, na luta, porta do quarto. E as coxas? As coxas são muito magra. Etc .. Acima, aguardar estoque em queda livre.
Sim, uma placa, ele disse que um pouco ofendido com a gordura sobre o linguine. Ele puxou do bolso o livro vencedor.
- O cinza!
- Uns gráficos simples, não?
No gráfico, não se pode provar que ele estava errado. Por outro lado, é o editor que escolhe. Uma linha pura, então ele o chama. Pooh! Ele disse também essencial. Ele fala como um arquiteto. Por que ele não tira estacionamentos? Ele parece não ouvir o editor: algumas reservas. O livro vendeu muito pouco. Ah sim, ele também diz que uma linha de rigor. Rigor mortis, sua esposa iria dizer.
O escritor está de pé. Agora o cão ...
- Ascânio! Desce!
Baixo da cadeira. Scat. Ascânio, caramba ... Et cetera. Ele finalmente tirou o chinelo. Bocejo, chinelo que vem e vai, ameaçando o cão para baixo, o que a arrogância deste post! Curioso, em um cão, nem alto nem baixo, nem longa nem curta. Absolutamente média.
O escritor não pretende lançar-se em sua cadeira listrada quente. Ele acha que a placa de linguine, a cobertura do livro um pouco aborrecido, ele pensa em sua musa. Ele poderia se juntar a ela no quarto e dizer, desculpe-me minha musa. Ela tirou o ar de De Profundis, a sua dela de angina pectoris. Ele poderia tirar partido dos seus instintos básicos in extremis, tirar-lhe a pegajosa, espalhe a sua sombra, arrancava os cabelos - adeus ao efeito lifting, sua esposa seria parecida com uma obra de art brut. Me desculpe, eu sou querida kaput, o que você diria para um Riesling?
Cabeça, pé pesado, ele hesita, pijama listrado, cadeira listrada, talvez eu sou um idiota, um escritor absolutamente médio - mais pobres - com a sua placa para pendurar na sala. Onde? Há, talvez, ao invés de vida ainda. Ainda viva como um escritor.


(tradução em português a partir da tradução do italiano feito por Christian Viredaz )





*CLAUDIA QUADRI :nasceu em 1965 em Lugano,uma comuna da Suíça, onde ainda reside. Ela trabalhou como jornalista para a rádio italiana da Suíça e da televisão desde 1997. Após Lupe primeiro romance muito bem recebido pelo público e pela crítica, Claudia Quadri continua sua exploração de "a ansiedade de viver"(Cleis Franca): Entre e Lacrima antiche astronavi, que retrata com ternura de uma multidão de personagens, entrelaçadas histórias de família e os destinos das pessoas comuns. Sua escrita parece tomar emprestado do teatro para descrever o cotidiano, e seu tom realista alterna com trechos de grande poesia. Publicado por Casagrande em Bellinzona, seus romances ainda não foram traduzidas para o francês.

sábado, 5 de março de 2011

HOMENAGEM: PONTO DE VISTA-MARINA COLASANTI ( ITÁLIA/BRASIL)*



Foto: Marina Colasanti




PONTO DE VISTA

MARINA COLASANTI (ITÁLIA/BRASIL)


Quando Nero queria ver
o mundo melhor
olhava-o através de
uma esmeralda.


Quando quero ver melhor
o mundo
eu o olho através
das palavras.

( Marina Colasanti. Fino Sangue. Rio de Janeiro: Record, 2005, p.81)



* MARINA COLASANTI: nasceu em 26 de setembro de 1937, em Asmara (Eritréia), Etiópia. Viveu sua infância na Africa (Eritréia, Líbia). Depois seguiu para a Itália, onde morou 11 anos. Chegou ao Brasil em 1948, e sua família se radicou no Rio de Janeiro, onde reside desde então.
Possui nacionalidade brasileira e naturalidade italiana.Entre 1952 e 1956 estudou pintura com Catarina Baratelle; em 1958 já participava de vários salões de artes plásticas, como o III Salão de Arte Moderna. É artista plástica, jornalista, escritora
Seu primeiro livro de poesia, Cada Bicho seu Capricho, saiu em 1992. Em 1994 ganhou o Prêmio Jabuti de Poesia, por Rota de Colisão (1993), e o Prêmio Jabuti Infantil ou Juvenil, por Ana Z Aonde Vai Você?. Suas crônicas estão reunidas em vários livros, dentre os quais Eu Sei, mas não Devia (1992) que recebeu outro prêmio Jabuti, além de Rota de Colisão igualmente premiado.Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Dentre outros escreveu E por falar em amor; Contos de amor rasgados; Aqui entre nós, Intimidade pública, Eu sozinha, Zooilógico, A morada do ser, A nova mulher (que vendeu mais de 100.000 exemplares), Mulher daqui pra frente, O leopardo é um animal delicado, Gargantas abertas e os escritos para crianças Uma idéia toda azul e Doze reis e a moça do labirinto de vento. Colabora, atualmente, em revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant'Anna com quem teve duas filhas: Fabiana e Alessandra.Em suas obras, a autora reflete, a partir de fatos cotidianos, sobre a situação feminina, o amor, a arte, os problemas sociais brasileiros, sempre com aguçada sensibilidade.

sexta-feira, 4 de março de 2011

HOMENAGEM: GOSTARIA DE TER SENSIBILIDADE... - FRANCISCO MUÑOZ SOLER (ESPANHA)*


GOSTARIA DE TER SENSIBILIDADE


Francisco Muñoz Soler (Espanha)

Tradução: Vanda Lúcia da Costa Salles (Brasil)


Gostaria de ter sensibilidade
e o talento de Federico
para poder transmitir ao mundo
meu vazio e frustração
diante do olhar de um menino
atrás de uma cerca,
gostaria ter uma migalha
de seu exuberante duende
para distribuir ao mundo
um pouco de esperança
para esses garotos que morrem
sem conhecer a ternura.

No centenário de García Lorca



(página:17, in: Lluvia Ácida)





Aunque tengo momentos de alegria


A Jorge Luis Borges



Aunque tengo momentos de alegría
siento que no vivo mi propia vida
que estoy secuestrando mi tiempo
sepultándome de futilidad y pérdida,
para evitar que esta sensación
que empieza a enmohecer mis sueños
no corroa mis entrañas
de frustración y rabia
por todo lo que estoy dejando
de vivir y disfrutar
en mi única y frágil vida,
necesito asumir los necesarios riesgos
para subir mis montañas
cometer mis errores
y contemplar mis propios atardeceres,
no quiero sentir la necesidad
de volver atrás en mi vida
cuando llegue a la edad
que sabré que pronto
me estaré muriendo,
por no haber puesto el valor
el tesón y la indispensable entrega
para tener la certeza
de haber gozado la plenitud
de mis propios días.


(Páginas:27/28, In: Lluvia Ácida)




AINDA TENHO MOMENTOS DE ALEGRIA


A Jorge Luís Borges


Francisco Muñoz Soler (Espanha)

Tradução: Vanda Lúcia da Costa Salles (Brasil)



Ainda tenho momentos de alegrias
sinto que não vivo minha própria vida
que estou seqüestrando meu tempo
sepultando-me de futilidade e perdas,
para evitar que esta sensação
que começa a amolecer meus sonhos
não corroa minhas entranhas
de frustração e raiva
Por tudo que deixo
de viver e desfrutar
em minha única e frágil vida
necessito assumir os riscos necessários
para subir minhas montanhas,
cometer meus erros,
e contemplar meus próprios entardeceres,
não quero sentir a necessidade
de voltar atrás em minha vida
quando chegue a idade
de saber de imediato
que morrerei,
por não pôr o valor,
a tensão e a indispensável entrega
para possuir a certeza
de haver gozado a plenitude
dos meus próprios dias.






Los seres humanos están empeñados


Los seres humanos están empeñados
en conseguir reinos, mercaderías, privilegios
cuando las mayores grandezas
se encuentran en minúsculas esencias
como una mirada, un caricia, un sentimiento.


(Página:36, in: Lluvia Ácida)



OS SERES HUMANOS ESTÃO EMPENHADOS


Francisco Muñoz Soler (Espanha)

Tradução: Vanda Lúcia da Costa Salles (Brasil)



Os seres humanos estão empenhados
em conseguir reinos, mercadorias, privilégios
quando as maiores grandezas
encontram-se em minúsculas essências
como um olhar, uma carícia, um sentimento.






Hay palabras que son como lluvia breve


Hay palabras que son como lluvia breve
agua de cristales hirsutos que rasgan
como la más afilada de las garras
su maldad es que es lluvia ácida
y sobre las almas que resbalan
dejan ulceras dolorosamente putrefactas.


(Página:51, In: Lluvia Ácida)




HÁ PALAVRAS QUEM SÃO COMO CHUVA BREVE


Francisco Muñoz Soler (Espanha)

Tradução: Vanda Lúcia da Costa Salles (Brasil)


Há palavras que são como chuva breve
água de cristais pontiagudos que rasgam
como as mais afiadas garras
sua maldade é que é chuva ácida
e sobre as almas que resvalam
deixam úlceras dolorosamente putrefatas.



portada de la pintora cubana Carmen Karin Aldrey.


*FRANCISCO MUÑOZ SOLER:nació en Málaga, España – 1957.
Poeta de fina sensibilidad y compromiso con la dignidad
y libertad individual y colectiva de las personas, asimismo
aboga por la unidad e igualdad de derechos de la humanidad,
basada en la tolerancia y el respeto. Es miembro de la
Red Mundial de Escritores (REMES), del movimiento Poetas
del mundo, La voz de la palabra escrita y Militeraturas. Ha
publicado en las Revistas de Literaturas digitales Remolinos,
Palabras de Tramontana, El laberinto de Ariadna, entre
otras. Durante 2010 participó en el Encuentro Internacional
3 orillas en La Laguna, España y el Festival Internacional de
Poesía de La Habana, en Cuba. Ha escrito 11 libros, 8 de ellos
editados en formato virtual en la Red de redes. Asimismo ha
publicado La densa corporeidad de mi memoria (Ediciones
Estival, Venezuela, 2008), La claridad asombrosa (Editorial
Voces de Hoy, Florida-USA, 2009) y Una flor erguida sobre su
perfumada belleza. Antología esencial (Paracaídas Editores,
Lima, 2010). Lluvia ácida, escrita en el 2000, se convierte en
su segundo título publicado en Perú.

quinta-feira, 3 de março de 2011

POESIA: OSSOBO - VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (BRASIL)



Foto: pássaro ossobo






OSSOBO


VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (BRASIL)



Vovó Cambinda ninava menino e menina
pra mode de quê ficasse pretim pretim
que nem calango da mata virge
daí,
que a gente ria ria e ria
de perder o fôlego
até que ela,
em seus azeites,
refazia o piricote
pitava três vezes o cachimbo
e virava Ossobo

domingo, 27 de fevereiro de 2011

HOMENAGEM: A NOITE EM QUE OS HOTÉIS ESTAVAM CHEIOS - MOACYR SCLIAR (BRASIL)*



Foto: Bandeira do Brasil




Foto: Moacyr Scliar (Brasil)





A NOITE EM QUE OS HOTÉIS ESTAVAM CHEIOS




MOACYR SCLIAR (BRASIL)





O casal chegou à cidade tarde da noite. Estavam cansados da viagem; ela, grávida, não se sentia bem. Foram procurar um lugar onde passar a noite. Hotel, hospedaria, qualquer coisa serviria, desde que não fosse muito caro.

Não seria fácil, como eles logo descobriram. No primeiro hotel o gerente, homem de maus modos, foi logo dizendo que não havia lugar. No segundo, o encarregado da portaria olhou com desconfiança o casal e resolveu pedir documentos. O homem disse que não tinha, na pressa da viagem esquecera os documentos.

— E como pretende o senhor conseguir um lugar num hotel, se não tem documentos? — disse o encarregado. — Eu nem sei se o senhor vai pagar a conta ou não!


O viajante não disse nada. Tomou a esposa pelo braço e seguiu adiante. No terceiro hotel também não havia vaga. No quarto — que era mais uma modesta hospedaria — havia, mas o dono desconfiou do casal e resolveu dizer que o estabelecimento estava lotado. Contudo, para não ficar mal, resolveu dar uma desculpa:

— O senhor vê, se o governo nos desses incentivos, como dão para os grandes hotéis, eu já teria feito uma reforma aqui. Poderia até receber delegações estrangeiras. Mas até hoje não consegui nada. Se eu conhecesse alguém influente... O senhor não conhece ninguém nas altas esferas?

O viajante hesitou, depois disse que sim, que talvez conhecesse alguém nas altas esferas.

— Pois então — disse o dono da hospedaria — fale para esse seu conhecido da minha hospedaria. Assim, da próxima vez que o senhor vier, talvez já possa lhe dar um quarto de primeira classe, com banho e tudo.

O viajante agradeceu, lamentando apenas que seu problema fosse mais urgente: precisava de um quarto para aquela noite. Foi adiante.

No hotel seguinte, quase tiveram êxito. O gerente estava esperando um casal de conhecidos artistas, que viajavam incógnitos. Quando os viajantes apareceram, pensou que fossem os hóspedes que aguardava e disse que sim, que o quarto já estava pronto. Ainda fez um elogio.

— O disfarce está muito bom. Que disfarce? Perguntou o viajante. Essas roupas velhas que vocês estão usando, disse o gerente. Isso não é disfarce, disse o homem, são as roupas que nós temos. O gerente aí percebeu o engano:

— Sinto muito — desculpou-se. — Eu pensei que tinha um quarto vago, mas parece que já foi ocupado.

O casal foi adiante. No hotel seguinte, também não havia vaga, e o gerente era metido a engraçado. Ali perto havia uma manjedoura, disse, por que não se hospedavam lá? Não seria muito confortável, mas em compensação não pagariam diária. Para surpresa dele, o viajante achou a idéia boa, e até agradeceu. Saíram.

Não demorou muito, apareceram os três Reis Magos, perguntando por um casal de forasteiros. E foi aí que o gerente começou a achar que talvez tivesse perdido os hóspedes mais importantes já chegados a Belém de Nazaré.

-...-




*MOACYR JAIME SCLIAR: nasceu em Porto Alegre a 23 de março de 1937.
Em 1943, começou seus estudos na Escola de Educação e Cultura, também conhecida como Colégio Ídiche, aonde sua mãe chegou a lecionar. Em 48, transferiu-se para o Colégio Rosário, um ginásio católico.
Em 1955, foi aprovado no vestibular de medicina pela faculdade de medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde se formou em 1962.
Exerceu a profissão junto ao Serviço de Assistência Médica Domiciliar e de Urgência (SAMDU).

Seu primeiro livro publicado foi "Histórias de Médicos em Formação", publicado em 1962, depois desse livro a produção literária de Scliar não parou mais.
É autor de mais de 30 obras entre romances, ensaios, contos e artigos. Tem traduções de seus livros em vários idiomas, entre eles, alemão, francês, espanhol, inglês, italiano, hebraico e sueco.

Em 1989, Moacyr Scliar recebeu, em Cuba, o prêmio internacional Casa de Las Américas pelo livro "A Orelha de Van Gogh".
É colaborador da Folha de S.Paulo desde a década de 70 e assina atualmente uma coluna no caderno Cotidiano.
Moacyr Scliar é hoje um dos escritores mais representativos da literatura brasileira contemporânea. Os temas dominantes de sua obra são a realidade social da classe média urbana no Brasil e o judaísmo. As descrições da classe média feitas por Scliar são, frequentemente, inventadas a partir de um ângulo supra-real.
Entre suas obras mais importantes estão: "A História de um Médico em Formação" (1962); "A Guerra do Bom Fim" (1972); "O Exército de um Homem Só" (1973); "Mês de Cães Danados" (1977); "O Centauro no Jardim" (1980); "A Orelha de Van Gogh" (1988); "Olho Enigmático" (1988) e "A Mulher que Escreveu a Bíblia" (1999).

sábado, 26 de fevereiro de 2011

HOMENAGEM: PRÓLOGO - TEDI LÓPEZ MILLS (MÉXICO)*



Foto: Bandeira do México



Foto: Tedi López Hills (México)




PRÓLOGO


TEDI LÓPEZ MILLS

De mis antepasados heredé la ruta adversa,
el surco mal abierto que pide clemencia al pasto,
el incisivo trote de la pezuña en el polvo húmedo,
la certeza sin el mérito del presentimiento,
el alma contemplativa e inerte
que no acude a la hora de su vida
ni asiste al tiempo de su muerte.



Y he dispuesto en mí
que esta sangre extraña me conceda un sino:
el arbusto salvaje que crece al sur del mapa;
la ronda insensata del cascabel y del colmillo,
la infame zarzuela que interrumpe la caída de un imperio
en cuyo centro reinaba el corazón más taciturno.



Y que las figuras de una edad antigua
vayan contando los minutos de mi suerte,
y crezca el miedo a mi lado como sombra
por haber querido llegar a otra parte.




Busco, pues, la remota quietud
de un intento contiguo al destierro,
el escenario y la tramoya
para encarnar las cifras de una pasión.




Este es el relato de una tierra
y del advenimiento de una tierra.




Ya estábamos, desde siempre.
No reparto bienes. Nada tengo.
Corrijo el curso. Honestamente



*TEDI LÓPEZ MILLS: nació el primero de agosto de 1959 en la capital mexicana, estudió filosofía en la Universidad Nacional Autónoma de México y cursó la maestría en literatura hispanoamericana en la Universidad de la Sorbona, de París.
Ha sido jefa de redacción en La Gaceta del Fondo de Cultura Económica (FCE), asistente editorial de Poesía y Poética; traductora de inglés y francés, además de editora del Centro de Investigación, Documentación e Información Musical.
Su carrera ha recorrido instituciones como el Fondo Nacional para la Cultura y las Artes y el Sistema Nacional de Creadores de Arte, entre otras importantes instituciones de difusión cultural.

López Mills recibe el galardón que desde 1955 otorga la Sociedad Alfonsina Internacional y el Consejo Nacional para la Cultura y las Artes. Se ha concedido a 105 escritores, entre ellos: Octavio Paz (1956), Rosario Castellanos (1960), José Emilio Pacheco (1973), Carlos Fuentes (1975), Sergio Pitol (1981), Alvaro Mutis (1988), Carlos Monsiváis (1995), Hugo Gutiérrez Vega (2002) y el año pasado a Adolfo Castañón.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

HOMENAGEM: MADRUGADA - MARIA CRISTINA FERVIER (ARGENTINA)



Foto: Bandeira Argentina




Foto: Maria Cristina Fervier (Argentina0

MADRUGADA

La madrugada teñida de lirios
busca el azul del encuentro.
Dianas de gloria resuenan
en las vísceras de estrellas
que tiemblan de gozo
al presentir la luz que Eros,
en suave brizna,
deja como una caricia.
Los poetas no duermen,
vuelan en pos de quimeras,
tienen en sus alas polvo de luna de plata.
Con trote de ciervo aventurado
nacen las palabras
y el poema cobra vida en la madrugada.
Pájaros se desperezan con trinos
y en el corazón hacen nido,
más allá entre las sombras acechan
las uñas afiladas del mundo
con el mórbido deseo
de transgredir los sueños.







MADRUGADA


MARIA CRISTINA FERVIER (ARGENTINA)



A madrugada tingida de lírios
busca o azul do encontro
Dianas de glória ressoam .
nas vísceras de estrelas
tremem de gozo
Ao pressentir a luz que Eros,
uma suave bruma,
deixa como uma carícia.
Os poetas não dormem,
voam a procura de quimeras
tem em suas asas poeira de lua prateada.
Com trote de cervos aventureiros
nascem as palavras
e o poema cobra vida na madrugada.
Pássaros se dispersam com trinos
e no coração fazem ninho
mais além, entre as sombras espreitam
as unhas afiadas do mundo
com o mórbido desejo
de transgredir os sonhos.




MARÍA CRISTINA FERVIER - Nació en Froylán Palacios – Hoy Salto Grande (Santa Fe - Argentina) el 04 de diciembre de 1945.És una hermosa poeta contemporánea.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

HOMENAGEM: EM QUE LÍNGUA ESCREVER? NA KAL LINGU KE N NA SKIRBI ? - MARIA ODETE SEMEDO(GUINÉ-BISSAU)*



Foto: Bandeira da Guiné-Bissau



Foto: Maria Odete Semedo



"Na kal lingu ke n na skirbi
Ña diklarasons di amor?
Na kal lingu ke n na kanta
Storias ke n kontado?

Na kal lingu ke n na skirbi
Pa n konta fasañas di mindjeris
Ku omis di ña tchon?
Kuma ke n na papia di no omis garandi
Di no pasadas ku no kantigas?
Pa n kontal na kriol?
Na kriol ke n na kontal!
Ma kal sinal ke n na disa
Netus di no djorsoN?

Ña rekadu n na disal tambi na n fodja
N e lingu di djinti
E lingu ke n ka ntind"




EM QUE LÍNGUA ESCREVER? NA KAL LINGU KE N NA SKIRBI?


MARIA ODETE SEMEDO (GUINÉ-BISSAU)


Em que língua escrever
As declarações de amor?
Em que língua cantar
As histórias que ouvi contar?
Em que língua escrever
Contando os feitos das mulheres
E dos homens do meu chão?
Como falar dos velhos
Das passadas e cantigas?
Falarei em crioulo?
Mas que sinais deixar
Aos netos deste século?
Ou terei de falar
Nesta língua lusa
E eu sem arte nem musa
Mas assim terei palavras para deixar
Aos herdeiros do nosso século
Em crioulo gritarei
A minha mensagem
Que de boca em boca
Fará a sua viagem
Deixarei o recado
Num pergaminho
Nesta língua lusa
Que mal entendo
Ou terei de falar
Nesta língua lusa
E eu sem arte nem musa
Mas assim terei palavras para deixar
Aos herdeiros do nosso século
Em crioulo gritarei
A minha mensagem
Que de boca em boca
Fará a sua viagem
Deixarei o recado
Num pergaminho
Nesta língua lusa
Que mal entendo
E ao longo dos séculos
No caminho da vida
Os netos e herdeirosSaberão quem fomos



( Maria Odete Semedo.In “Entre o Ser e o Amar”,INEP, 1996)



MARIA ODETE DA COSTA SEMEDO:nasceu em Bissau a 7 de Novembro de 1959. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Foi Presidente da Comissão Nacional para a UNESCO - Bissau. Fundadora da "Revista de Letras, Artes e Cultura Tcholona". Publicou um livro de poemas "Entre o Ser e o Amar", em Bissau (1996). É atualmente investigadora, na capital guineense, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas, para as áreas de Educação e Formação.Doutora em Letras (PUC-MINAS GERAIS-BRASIL).

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

HOMENAGEM: PELA ELEGÂNCIA E DIGNIDADE DA CONSCIÊNCIA... VIVA A UTOPIA!!! - BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS (BRASIL)




Foto: Bandeira do Brasil






Foto: Bartolomeu Campos de Queirós (Brasil)




Belo Horizonte, 17 de fevereiro de 2011


MUSEU PÓS-MODERNO DE EDUCAÇÃO,

Hoje, me vi pensando como seria viver em um país de leitores literários. Pode ser
apenas um sonho, mas estaríamos em um lugar em que a tolerância seria melhor
exercida. Praticar a tolerância é abrigar, com respeito, as divergências, atitude só viável quando estamos em liberdade. Desconfio que, com tolerância, conviver com as diferenças torna-se em encantamento. A escrita literária se configura quando o escritor rompe com o cotidiano da linguagem e deixa vir à tona toda sua diferença . e sem preconceitos. São antigas as questões que nos afligem: é o medo da morte, do abandono, da perda, do desencontro, da solidão, desejo de amar e ser amado. E, nas pausas estabelecidas entre essas nossas faltas, carregamos grande vocação para a felicidade. O texto literário não nasce desacompanhado destes incômodos que suportamos vida afora. Mas temos o desejo de tratá-los com a elegância que a dignidade da consciência nos confere.

A leitura literária, a mim me parece, promove em nós um desejo delicado de ver
democratizada a razão. Passamos a escutar e compreender que o singular de cada
um . homens e mulheres . é que determina sua forma de relação. Todo sujeito
guarda bem dentro de si um outro mundo possível. Pela leitura literária esse anseio ganha corpo. É com esse universo secreto que a palavra literária quer travar a sua conversa. O texto literário nos chega sempre vestido de novas vestes para inaugurar este diálogo, e, ainda que sobre truncadas escolhas, também com muitas aberturas para diversas reflexões. E tudo a literatura realiza, de maneira intransferível, e segundo a experiência pessoal de cada leitor. Isto se faz claro quando diante de um texto nos confidenciamos: "ele falou antes de mim", ou "ele adivinhou o que eu queria dizer".

MUSEU PÓS-MODERNO DE EDUCAÇÃO, o texto literário não ignora a metáfora. Reconhece sua força e possibilidade de acolher as diferenças. As metáforas tanto velam o que o autor tem a dizer como revelam os leitores diante de si mesmo. Duas faces tem, pois, a palavra literária e são elas que permitem ao leitor uma escolha. No texto literário autor e leitor se somam e uma terceira obra, que jamais será editada, se manifesta. A literatura, por dar a voz ao leitor, concorre para a sua autonomia. Outorga-lhe o direito de escolher o seu próprio destino. Por ser assim, MUSEU PÓS-MODERNO DE EDUCAÇÃO, a leitura literária cria uma relação de delicadeza entre homens e mulheres.

Uma sociedade delicada luta pela igualdade dos direitos, repudia as injustiças,
despreza os privilégios, rejeita a corrupção, confirma a liberdade como um direito
que nascemos com ele. Para tanto, a literatura propõe novos discernimentos, opções mais críticas, alternativas criativas e confia no nosso poder de reinvenção. Pela leitura conferimos que a criatividade é inerente a todos nós. Pela leitura literária nos descobrimos capazes também de sonhar com outras realidades. Daí, compreender, com lucidez, que a metáfora, tão recorrente nos textos literários, é também uma figura política.

Quando pensamos, MUSEU PÓS-MODERNO DE EDUCAÇÃO, em um Brasil Literário é por reconhecer o poder da literatura e sua função sensibilizadora e alteradora. Mas é preciso tomar
cuidados. Numa sociedade consumista e sedutora, muitos são leitores para consumo externo. Lêem para garantir o poder, fazem da leitura um objeto de sedução. É preciso pensar o Brasil Literário com aquele leitor capaz de abrir-se para que a palavra literária se torne encarnada e que passe primeiro pelo consumo interno para, só depois, tornar-se ação.

MUSEU PÓS-MODERNO DE EDUCAÇÃO, o Brasil Literário pode, em princípio, parecer uma utopia, mas por que não buscar realizá-la?




Com meu abraço, sempre, Bartolomeu




BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS:é um dos mais destacados autores brasileiros no âmbito da literatura para crianças e jovens. E responsável pelo MOVIMENTO POR UM BRASIL LITERÁRIO, onde podemos encontrar o MANIFESTO, e querendo a utopia, congregar-mo-nos.
Nascido em 1944,em Minas Gerais, Bartolomeu formou-se em arte-educação pelo Instituto Pedagógico de Paris. Como escritor, estreou em 1974 com o livro O peixe e o pássaro. De lá para cá, publicou mais de 40 títulos, traduzidos em vários idiomas, e foi diversas vezes distinguido ao longo de sua carreira literária com prêmios como o Cidade de Belo Horizonte, o Jabuti (da Câmara Brasileira do Livro), o Selo de Ouro (da Fundação Nacional do Livro Infantojuvenil), o diploma de honra do International Board on Books for Young People (IBBY, Londres) e o prêmio francês Quatrième Octogonal.
Pela SM publicou, em 2009, o livro Tempo de voo — lançado simultaneamente no Brasil, na Espanha, no México (e também na França pela Seuil) —, obra vencedora do Prêmio Glória Pondé, da Biblioteca Nacional (Brasil), selecionada para o catálogo White Ravens 2010, organizado pela Internationale Jugendbibliothek para a Feira de Bolonha.
Em 2008, pelo conjunto da obra, obteve o IV Prêmio Ibero-Americano de Literatura Infantil e Juvenil (foto acima), promovido pela Fundação SM em associação com o Centro Regional para o Fomento do Livro na América Latina, Caribe, Espanha e Portugal (Cerlalc), o International Board on Books for Young People (IBBY), a Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI) e a Unesco.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

HOMENAGEM: PANTOMINA - LUIZ ANTÔNIO CAJAZEIRA RAMOS (BRASIL)




Foto: Bandeira do Brasil



Foto: O poeta





PANTOMINA


LUIZ ANTÔNIO CAJAZEIRA RAMOS (BRASIL)

Os melhores cordeiros da fazenda
seguirão para o abate na cidade.
Os carneiros mais fracos do rebanho
serão sumariamente degolados.

O bode velho vai pro sacrifício,
por mais que seu olhar peça clemência.
Nem mesmo as cabritinhas inocentes
terão misericórdia ou esperança.

As carnes assarão ao sol: fogueira.
As peles secarão ao sol: curtume.
As vísceras suarão ao sol: carniça.
Os ossos sumirão ao sol: poeira.


Somente a ovelha negra fica impune
... enquanto o bom pastor toca sua flauta.
.



LUIZ ANTÔNIO CAJAZEIRA RAMOS: nasceu em 12 de agosto de 1956, em Salvador, Bahia.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

LITERATURA INFANTO-JUVENIL: A PALAVRA DO MENINO E AS ABOBRINHAS- POR VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (BRASIL)



Foto: Uma tela construída sob à luz da Arteterapia, por Vanda Lúcia da Costa Salles





Fragmento do livro A PALAVRA DO MENINO E AS ABOBRINHAS - Um trabalho em ARTETERAPIA, com ilustrações da autore e de Raíssa Salles e Ramon Cibélio Salles


Textos: Vanda Lúcia da Costa Salles (Brasil)



No canto da sala de aula daquela escola, o menino-de-uma-perna-só imaginava coisas...


Tais como: Ler e escrever é tecer o imaginário com os fios da esperança....


É acalentar a boneca Alegria!!!!


E ele imaginava os fios, compridos, mas também enrondilhados, como o da aranha que tecia no outro canto da sala a sua teia. Fina, de mofo nebrinoso. Sorriu do seu pensamento.


O pensamento também era um fio que virava palavras.



E tecia coisas e pessoas, dando-lhes movimentos.


Ali dentro, ele pensava com os seus botões e abriu um diálogo com o seu dentro;


- O Sonho se evola? Perto ou longe? Do dentro ou do fora?



[...]



Estava ali, separado das outras crianças porque enquanto todos cantavam iguais, afinadinhos, perfeitos...

... Ele desafinava. Era um menino que se permitia desafinar.



Aliás, desafinar era o seu propósito,dizia a professora enquanto olhava o relógio da parede corroída. Olhando o volteio do olhar dela, o menino bombardeou-a:


- É possível inventar um sonho? Afeto tem sexo? Qual é o raio da nossa intolerância?



( In: A PALAVRA DO MENINO E AS ABOBRINHAS, 2005, DE VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES)

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

POESIA: JUNO - VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (BRASIL)







JUNO


VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (BRASIL)




é uma educadora ímpar,bem sabe
que o narciso não aprimora a alegria
e nem o dia apavora a chama.
O lema não é sacrifício, porém
a causa sempre é mais além.
Se os discípulos vagam sem luz,
energiza-os e as mentes aceleram em saber
que das dadivosas mãos,
somente as escritas,
merecedoras são de um afago sutil.
Essa deusa terrena é massa!


Juno é o primor das manhãs estudantis
que
assanham os carnavais, aqui
em nossa praia de mel.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

POESIA: EM SEU DOCE OLHAR - VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (BRASIL)




Foto: Museu do Louvre



EM SEU DOCE OLHAR


VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (BRASIL)


Aos Amigos Gustavo e José Luís Gianni (Argentina)





De minha janela observo esse singular cotidiano
É iniludível, praseiroso como um beijo à borda da piscina,
em uma tarde de verão.
Não creio,
que o homem que pedala a sua bicicleta,
vagarosamente,
no meio fio da estrada dessa rodovia,
a qual,
muitas vezes,
deixo o meu olhar andarilho
devanear como um cavalo fogozo e rasgar a indecisão do momento,
saiba que de minha janela enxergo no doce do seu olhar,
a amorosa paixão pela vida.


E se seu nome fosse Davi, não seria tão certo?


Diante da diversidades de carros, ônibus, táxis ele segue.
Pedalando a sua bicicleta gasta e suada,
na garupa uma caixa vermelha deixa ver o seu conteúdo.
Uma caixa de leite,
um queijo,
um vinho,
um pacote de bolacha,
e duas bisnagas.
A mim parece que a felicidade caminha ao seu lado. Sinto desejos de acenar-lhes.



As árvores no caminho percorrido parecem verdejantes,apesar
do calor sufocante que oprime o dia. Ele segue audaz. Um sorriso o espera ao longe...
De repente,
meu pensamento voa até a impressão que quedou-me do seu doce olhar.
A imagem de Gustavo e José Luís refresca-me a mente, saudosa
a memória sorri
( era dia dos Reis Magos),e
fica por um momento cativa de ti, Ó destemidos amigos.



Se Iemanjá estabeleceu o encontro das águas,
purificados,
estamos no plumo.
Da porta,
aberta,
as delícias em alecrim e gerâneos, dos jardins
perfumosos canais encaminham nossos pés querubins.




A ternura não é dom de quaisquer,
é força inovadora,
que sabemos ousar,
sem que fosse,
necessário falar.



Ouçam,
um pombo acabou de pousar em minha janela.Sete borboletas coloridas vieram também. Benfazejas!
Imagino a mensagem divina.
Quem sabe,
vocês apareçam aqui, qualquer dia?

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

POESIA: COM FORMAS - VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (BRASIL)



Foto: Escrita








COM FORMAS


VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (BRASIL0



Fenômeno assinalável na história da humanidade
saudade não condiz
a fome que há
nas formas de se explicitar



E de mais profundo
abre-se fenda/acesso
ao inconcebível sonho de ser
radiante manhã


Um pôr-de-sol não geometriza
as árvores formais da primavera
e nem mesmo este verão
de um simbólico pensamento
afaga o paradoxo
permissivo ao escrito amor.



Amo os parágrafos caudalosos de Proust!

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

HOMENAGEM: IMAGEM DO MUNDO E AUSÊNCIA - NUNO JÚDICE (PORTUGAL)



Foto: O poeta



IMAGEM DO MUNDO



NUNO JÚDICE (PORTUGAL)



Vejo o mundo. E ao ver as coisas do mundo,
Com a sua realidade própria, vejo também
A diversidade que existe en cada coisa,
Distinguindo-a multipla ou plural,
Como se diz. No entanto, o que eu vejo
E sempre igual ao que eu penso
Que o mundo é; e tudo se torna
Semelhante, dentro deste mundo que é
O meu, e é sempre diferente do mundo que
Existe no pensamento de outro. E por isso
Que não penso nas coisas do mundo como
Se fossem minhas; e que o deixo para os outros,
Para que eles façam o mundo como quiserem,
Para que seja diferente do meu, quando o
Olho, e o que vejo me restitui o mundo
Como eu o quero, diferente do mundo que
Os outros pensam.





AUSÊNCIA


NUNO JÚDICE (PORTUGAL)



Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,
por isso, de deixar alguns sinais – um peso
nos olhos, no lugar da tua imagem, e
um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes
tivessem roubado o tacto. São estas as formas
do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
as coisas simples também podem ser
complicadas, quando nos damos conta da
diferença entre o sonho e a realidade. Porém,
é o sonho que me traz a tua memória; e a
realidade aproxima-me de ti, agora que
os dias correm mais depressa, e as palavras
ficam presas numa refração de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de
mim – e me faz responder-te uma coisa simples,
como dizer que a tua ausência me dói.


(Nuno Júdice – do livro: Por Dentro do Fruto a Chuva – Antologia Poética)


*NUNO JÚDICE: nasceu no Algarve, sul de Portugal, em 1949. Poeta, romancista, ensaísta, dramaturgo, editor, professor universitário e diplomata. Estudou filologia clássica. publicou doze livros de poesia, seis de ficção, e vários volumes de ensaios. Foi o primeiro poeta português a ser publicado na França pela Gallimard . Em 1973 ganhou o prêmio Neruda ,em 1995, o grande prémio de poesia pela Associação de Escritores Portugueses. Serviu como Adido Cultural de Portugal em Paris. Fundador e diretor da revista Poesia Tabacaria. Algumas de suas obras, traduzidas para o francês são reflets Jeu de (conjunto de reflexões), com pinturas de Manuel Amado, Paris, Chandeigne, 2001; Lignes d'eau (linhas de água), Fata Morgana, 2000, Traços d'ombre (sombra AVC), traduzido por Leibrich Geneviève, em Paris, Métailié, 2000; Um temps du chant dans l'épaisseur (Uma canção na espessura do tempo), seguido por ruines Méditation sur les (Meditação sobre ruínas), Gallimard, 1996; Voyage dans un siècle de littérature portugaise (Ride um século de literatura Português), Bordeaux, l'Escampette, 1993.

sábado, 15 de janeiro de 2011

POESIA: A AMIZADE - VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES(BRASIL)





A AMIZADE


VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (BRASIL)



Amizade é o tempo da espera,
entretanto,
a alegria de sabê-la em mim
solidifica o sentimento que neste janeiro se inscreve.



Sonhos & devaneios agora pincelo, e
da tela em branco cores surgem lépidas,
como se a juventude penetrasse os traços
que os dedos acariciam


Barcos, veleiros e fragatas singram esse mar
Novos portos,
vida nova em sincera harmonia
Do livro,
as folhas escrevem-se confiantes.


A brisa leve que do oceano embala-nos
também embala
esse homem e essa mulher que caminham em torno
O mundo nem sempre é uma família,e
eles se necessitam.


No entrelaçar de seus dedos a esperança exprime
O sabor do sorriso alegre
que do peito espande-se
pra vida ser somente
o que se faz preciso, e
no compartir da xícara de chá
agora,
nesse exato momento,
em que se veem dentro... E barcos, veleiro e fragatas deslizam mar aberto.


No dentro de cada um: a flor dessa amizade impera.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

POESIA: ASSIM - VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (BRASIL)




Foto: Tulipas do campo




ASSIM

VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (BRASIL)



Buscaste em um só olhar
distinguir a causa dessas pegadas... Assim que o rio transbordou
todas as tulipas do campo acenaram
em um inusitado rodopio, e
à luz de suas palavras forjei uma saída magistral.
Os lírios ansiaram copos e o verde de suas folhas
acariciaram todos os sonhos fugitivos.


Lançado ao mar, o barco contornou as dunas!

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

HOMENAGEM: UM MINUTO DE SILÊNCIO - FRANCISCO BORJA DA COSTA (TIMOR-LESTE)



Foto: Bandeira do Timor-Leste





UM MINUTO DE SILÊNCIO



FRANCISCO BORJA DA COSTA (1946-1975/TIMOR-LESTE)



Calai
Montes
Vales e fontes
Regatos e ribeiros
Pedras dos caminhos
E ervas do chão,
Calai


Calai
Pássaros do ar
E ondas do mar
Ventos que sopram
Nas praias que sobram
De terras de ninguém
Calai






Calai
Canas e bambus
Árvores e "ai-rús"
Palmeiras e capim
Na verdura sem fim
Do pequeno Timor
Calai


Calai
Calai-vos e calemo-nos
Por um minuto
É tempo de silêncio
No silêncio do tempo
Ao tempo de vida
Dos que perderam a vida
pela Pátria
pela Nação
pelo Povo
pela Nossa
Libertação
Calai - um minuto de silêncio...

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

HOMENAGEM: NO JARDIM ZEN - NORTON HODGES (INGLATERRA)*




Foto: Bandeira da Inglaterra





IN THE ZEN GARDEN

NORTON HODGES ( INGLATERRA )




My earthly paradise
Is ordinary

This strip of land
Once through-designed
Now beatified
By your Taoist hand

So that, although we do nothing,
Every year new growth bounds through

And the birch tree we planted for us
Steady, tall, flourishing
Despite all the despites

And the little birds...

Although this is not
Chelsea or the Temples of Japan

Here the little birds are unafraid


( in: http://wasfab66.blogspot.com/2010_04_01_archive.html )





NO JARDIM ZEN





NORTON HODGES (INGLATERRA)



Meu paraíso terrestre
É comum

Esta faixa de terra
Uma vez projetada
Agora beatificada
Por sua mão taoísta

Ainda que não façamos nada,
Todos os anos seu crescimento salta os limites

E a bétula que plantamos para nós
Firme, alta, florescendo
Apesar de todo o despistes

E os passarinhos...

Embora isto não seja
Chelsea ou os Templos do Japão

Aqui os passarinhos são destemidos.



(Tradução: Vanda Lúcia da Costa Salles (Brasil)


*NORTON HODGES:Nasceu em Gravesend, Kent, Inglaterra em 1948. ensinou Idiomas Modernos na escolas secundárias na Inglaterra durante 22 anos. Ele também tem um M.A. e um Ph.D. em Idioma e Alfabetização em educação.É um promissor poeta contemporâneo.