quarta-feira, 1 de agosto de 2012

POESIA: O TEMPO E A VIDA - DE VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES

Foto: A poeta e escritora Vanda Lúcia da Costa Salles, na Boca da Barra, em Rio das Ostras



O TEMPO E A VIDA


             Por: Vanda Lúcia da Costa Salles  (Brasil)




Foram sempre as suas pegadas que procurei alcançar
As minhas marcavam a vida em seu próprio tempo,
com uma mesura de dama antiga, quis
a estrela que brilhava em sua face amiga
e aquele brilho inusitado de seu olhar
como se a qualquer hora pudéssemos andar
pelas paredes ilustradas por heras e musgos
onde, às vezes, quase
por milésimos de segundos,
a Lua conseguia beijar o Sol a surgir, longe
muito longe, na possibilidade da espera
o gosto de vinho branco suave valendo pérolas
adocicava
o tempo e a vida, em nós
Hoje, aqui estou como espera-maré,
você não mas, entretanto
essa estrela-do-mar adormecida na areia tem
um quê de sua imagem de avô
E por mais incrível que pareça, em plena praia
 na boca
apeteceu-me um gosto de manga espada, daquelas
adubada em Italva, exatamente
como fazíamos

quarta-feira, 4 de julho de 2012

POESIA: RIO DE JANEIRO - VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES



RIO DE JANEIRO


                      VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES



um sorriso um gosto e um quê dengoso
quando passeias por suas ruas e avenidas e praias; além de que
imaginar é tocar as estrelas, pensava se
moleque Machado de Assis caminhava lia escrevia, enquanto
vendia doces e tapiocas no Lavradio, Rio também é riso
no cotidiano translúcido de Lispector, musa epifânica
e se ...
e se...
em Copacabana a gente se assanha e vê golfinhos passeando nas marés
como se fosse um conto ímpar do João do Rio, porque
nem sempre as palavras cabem
e o pensamento significa consciência, porém
a obra prima
imprime vida a vida, e na beleza
há rima,
assim cantava o Vinicius de Moraes, em um sábado qualquer
mesmo sabendo que foi em uma quinta-feira
( ou seria quarta ? ),
que adormeceram Anisio - o Educador
De imediato,
a luz invade  como se fosse a partícula de Deus - a consciência brota:
isso explicaria o baixo salário do professor?
A poética contemporânea é solar e azul,
ciber
ciber
ocêanica e a mim encanta. A ti mais ainda. Fascinada lês
a própria face, e se intriga tonta
com a enorme possibilidade de ultrapassar as pedras
como sugeria o Carlos Drummond de Andrade, porque sempre há
uma pedra no meio do caminho, mas
caminhar é o meio
e pernas é o que não faltam nas calçadas... E se elas passam, o aroma
fica
Ah! como é lindo esse Rio de Janeiro
espontâneo e casual
na maresia dos amantes enclausurados em beijos




domingo, 17 de junho de 2012

POESIA: DO VERDE, NO AMANHECER DE TEUS OLHOS - VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (BRASIL)

Foto: Pintura de Renoir




DO VERDE, NO AMANHECER DE TEUS OLHOS

                                  Por: Vanda Lúcia da Costa Salles (Brasil)


Querido Renoir,
capto o teu olhar
como quem enamora-se da vida
porque a beleza deixou-se entrever
e mais que um prazer
é encontrar-me no deleite
do verde, no amanhecer de teus olhos.
Bem dizia-me, Senhora minha:
a Arte,
encanto da alma,
toque das Musas,
dom dos Deuses,
é o Sonho que devemos percorrer, assim,
exatamente como meus dedos em sua pele
Ah! Senhor, de minha contemplação
o que esperar quando se tem o coração do artista?
Apenas, sorrio e gozo, na vida: a imortalidade!

sexta-feira, 11 de maio de 2012

PROSA: A MÃE DE MINHA MÃE - VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES

Foto: Museu do Louvre



A MÃE DE MINHA MÃE


                  VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES ( RIO DE JANEIRO-BRASIL)




        "  Admirável a mãe de minha mãe quando contava as suas velhas histórias, embriagadoras de riso e perfeição criativa, nos fazendo esquecer que faltava de quase tudo nas panelas silenciadas no fogão de sua cozinha. E vivíamos a espera de seu afetuoso convite "Vamos catar pitangas, gurizada?"
          De papai, nada sabíamos, apenas que abandonara a casa quando Manoela nascera, e isso já ia para uns 10 anos. A mamãe enlouquecera de dor, nem tanto do abandono amoroso, muito mais quando Quiquinho virou uma estrelinha e passou a habitar o azulão do céu do Senhor  e ela conviver num tal Ego, conforme palavras da mãe de minha mãe.
          Hoje, exatamente hoje, a mãe de minha mãe afagou nossos corações: fez o convite esperado ao gritar bem cedinho, com a matula já preparada:
          - Pula da cama gurizada, vamos catar pitangas!  -  enquanto arrumava um lenço estampado na cabeça grisalha, sacudia os lençóis, apanhava os puçás e disparava os seus "causos" inusitados ao indagar: Por acaso, eu já contei a vocês  " As Aventuras do Capitão Leocádio?  - e continuou, fazendo cara de estupefata:
          - Não!?
          - Não!  - disse Manoela.
          - Vovó tenho sede!  - insinuou Martinho.
          - Pronto, aqui está a sua água. - e continuou:  - Pois saibam que é uma bela história, dentro de uma outra história, porque nessa mesma mata onde iremos trilhar a procura de pitangas, o esperto Capitão Leocádio - o pai do meu avô -, escondeu um grande tesouro que ganhou dos guaranis quando casou com a bela Indiara, filha do Cacique da tribo, ao capturá-la estalando folhinhas de pitanga dentro da mata virgem, em Arraial do Cabo.
          Por uns segundo, a mãe de minha mãe esquecia de tudo, seus olhos duas jabuticabas, brilhavam como se a felicidade em forma de lembranças beijasse o seu coração e a convidasse a bailar. E ela, com toda a sua doçura e expressividade, povoava a nossa imaginação de criança querendo aprender todos os mistérios escondidos, no coração da terra. E quando ela falava, a gente apenas ouvia, ouvia, e seguia a trilha deixada, ao pisar o capim, mata dentro. E eu, a frente, levava a sua bandeira, desbravando o inesperado do cotidiano..."

terça-feira, 1 de maio de 2012

POESIA: CÂNTICOS AOS TRABALHADORES - VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES

Foto: MÃE ( Botero )



CÂNTICOS AOS TRABALHADORES


                         VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES


I

Se a linguagem é imprecisa: L (ab) utamos!
Se o amor não corresponde: L ( ab) utamos!
Se a mão ao traço imola:  L (ab) utamos!
Se o osso atravessa o caldo: L (ab) utamos!
Se o leitor nega o círculo: L (ab) utamos!
E porque a vida exige uma transformação: L (ab) utamos!


II

Ó Senhor, dê a todos nós a flor do deslumbramento
e a descoberta dos silêncios,
na poesia da vida,
na solidariedade da terra trabalhada!


III


E se as calosas mãos já não criam: Afaste de nós esse cálice!



IV

Que o vinho embriague, da hóstia, o pão
na mesa não seja apenas batata ou esmola do pedinte,
e que nossos filhos não vivam agarrados as minguadas pensões
de seus pais e avós

VI

E reorganizem a mudança no foco de atenção: com consciência, porque
o tempo não tem realidades, apenas
a juventude da natureza


VII


E livre de estrutura  a curva ilumine, do gosto a saliva:
o que encanta o poema!


quarta-feira, 25 de abril de 2012

POESIA :MÃE- VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES


Foto: Maria Amaral Ferreira ( In memorian), mãe da poeta


MÃE

  Por: Vanda Lúcia da Costa Salles


I

Um signo marca a tarde, alegria
... nasce desse abril que tanto amavas
Do gesto, o canto samba


II

em gorjeios-pássaro entoam,
e garças plainam no brilho espumoso da maré, loas
um galanteio no azul, é



III

o que de longe imaginas, broto
todo um leque de igual sabor, a esgarçar
sorrisos nas mãos que tocas


IV

E se Deus houvesse lido, linhas essas
que sonhando brindas no fulgor adormecido
da tarde que voa, Ela, com toda certeza


V

compreenderia das lágrimas, o porquê
da vida não medir esforços e refazer
do pranto só ternura e broas, amo


VI

de ti, o canto entoo quando
serena, à noite, aprumo a esperança
e lanço-me veleiro ao mar...

VII

... aberto peito, jorra cascatas, em flor
meus versos são pétalas recém-nascidas, da agonia
e do desacerto, acalanto

VIII


o qual, ninguém entende, nadar frequente
notívago inseto, vago
em Dó maior.


IX

e a mãe, enlaça bandeira e vento em face
Na face Gorki não cala o que a fala engole, o risco
emblemático de bem-te-vis


X

canto a canto,m saliva engasga, um beijo estala
mais atrevido o sonho jorra: caraminholas
e amores-perfeitos





sexta-feira, 6 de abril de 2012

POESIA: COTIDIANO - VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (BRASIL)





COTIDIANO


VANDA LÚCIA DA COSTA SALLES (BRASIL)



Para W.J. SOLHA


I

a carta que não escrevi
ainda está gardada,
na gaveta da cômoda,
que é a minha memória a passear pelos jardins,
desse nosso planeta,
vivíssimo,
na molecagem do grafiti


II

em você a poesia tece manhãs outonais
e sei, para desepero de alguns
que o amanhã se estenderá
sobre violetas, gerânios e tantos queiram ser
somente flor
ou do amor,
a mesmíssima pétala



III

aroma gera o desalinho
desses golfinhos
quando veem passarinho verde,na língua
o oceano
invade a sina, e
diz que Arte
é mais e mais que mais
e está além dos nós




IV
ideia tal,
agua o toque,
e te oferto uma água de coco, aqui
em minha rede indígena e tropical
guardada a sete chaves
nesse meu coração gaivota dourada
caos,
em mim
o seu Marco do Mundo,Luz
a embalar minh'alma com alegria e charme